Faroeste Caboclo: Reinventando um sucesso

Faroeste Caboclo, o filme baseado na música homônima da banda de Brasília, Legião Urbana, é uma grata surpresa, pois aproveitou toda a poesia e essência do grande sucesso musical, mas sem se limitar as figuras de linguagem de Renato Russo, que resultariam em um filme sem liga, surreal demais para transmitir suas várias mensagens de maneira adequada.

Mais do que simplesmente descrever a história de um retirante, marcada por violência e incompreensão, o filme traça, de uma maneira crua e sem rodeios, uma visão do que foi a cena do rock de Brasília dos anos 80. O outro lado que poucos querem ver, e que o filme deixa muito claro, o abismo social, o enfado de uma multidão de jovens, em sua maioria abastados, que foram obrigadas a se mudar a uma cidade que não tinha cultura ou infra estrutura para satisfazê-los, o racismo marcado em cada interação entre João e o mundo de Maria Lúcia.

Recomendo que as pessoas entrem no cinema sem preconceitos, esquecendo por alguns momentos de suas idéias sobre a música, pois existe uma não linearidade entre o filme e a música, mas, longe de descaracterizar a obra original, a homenageia de maneira exemplar, levando em seu bojo também a época e o meio-ambiente onde ela surgiu.

Algo também muito interessante foi a mistura de estilos dentro do filme, onde o estilo prometido pelo título é agraciado de maneira exemplar, fazendo-o porém, sem o tom de cópia ou de ironia, e mantendo a descrição da violência de maneira visceral e direta, sem romantismos, que marcou produções Brasileiras como Cidade de Deus e Tropa de Elite.

Digo que, no meu ponto de vista, René Sampaio misturou referências de Fernando Meireles e Quentin Tarantino, sem cair para o simples plágio, produzindo algo com personalidade e além de tudo, contando uma história de amor sem cair no piegas ou apelar para a fórmula imortalizada por Shakespeare, ao contar a história de amor impossível entre o retirante e a filha de senador.

Recomendo este filme como mais do que uma simples adaptação, um retrato de realidades que quase não mudaram, apesar dos trinta anos de diferença. Uma prova viva de que, quando se tem sensibilidade, senso estético e capacidade, é possível contar uma história totalmente real e atual, mesmo usando uma linguagem que remeta à fantasia e ao épico, sem fazer com que o filme pareça indeciso sobre qual rumo deseja tomar.

Escritor, que vê o mundo de uma maneira especial e tenta transmitir essa visão aos outros, através de belas histórias.
“A história precisa ser vivida, antes de ser contada”

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