Beleza Falada #04 – Isabele

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Para você que ainda não conhece, Beleza Falada é um projeto do BelezaGeek para criação e divulgação de audiocontos e audiobooks. Confira agora o episódio 4 do projeto, Isabele.

Isabele é um conto sobre uma menina, que há algum tempo deixou de ser criança, mas sente falta disso. Sua carência e inocência trazem graves consequências que definem seu futuro. Escrito por Fernanda Oz. Você pode conhecer mais sobre o maravilhoso trabalho da escritora, visitando seu site e conhecendo sua HQ, Planeta Morto. Visite também sua página no Facebook.

Clique no play abaixo e ouça esse conto.

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Isabele 

Audio clip: Adobe Flash Player (version 9 or above) is required to play this audio clip. Download the latest version here. You also need to have JavaScript enabled in your browser.

Autora: Fernanda Oz

Narração: Bruna Evelyn

Edição: Bruna Evelyn

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ISABELE

Outra noite cobre os céus, tão densa e assustadora quanto todas as outras antes dessa, mas a pequena Isabele sente que o vento gelado que entra pela janela está levemente diferente.

Sua mãe, que parece mais morta que viva, balbucia com esforço algumas palavras incompreensíveis. A garota aproxima o ouvido da boca da mulher para tentar ouvir melhor:

- O que a senhora disse? – pergunta. A respiração quente e fraca da mãe coça-lhe a pele.

- Á-água.

- Vou pegar água pra você… – disse – Ah, e não se preocupa com o papai… Daqui a pouco ele vai chegar pra cuidar de você também. Ele só tá demorando porque hoje tem futebol na televisão. Ele sempre assiste ao jogo no bar com os amigos dele, né?

Mesmo sem conhecer a palavra e seu significado, todas as perguntas de Isabele para a mãe são retóricas. Respirou fundo e, engolindo um possível choro, foi buscar a água.

Da parede entre a sala e a cozinha um grande relógio grita que já passa da meia noite. Um calafrio gelado percorre as costas da garota, fazendo-a tremer de baixo a cima. Não gosta de relógios. Eles são os acusadores de que o tempo passa e tudo que ela ama vai embora.

‘’- Sua mãe não tem muito tempo de vida sobrando, mas não posso pagar um hospital ou alguém para cuidar dela, então você vai fazer isso‘’.

Maldito tempo que passa tão depressa…

Deseja intensamente que algum dia alguém cuide dela, ou que pelo menos possa voltar à escola e ser uma criança normal. Faz muito tempo que não sabe o que é ser criança.

A ultima memória que tem de ter sido feliz é de algum tempo atrás, na casa de sua avó. Isabele ama aquele lugar como ama poucas coisas na vida. Uma velha casinha com jardim nos fundos, onde uma grande árvore carrega um balanço colorido. Bons tempos que se foram. Tem vontade de chorar ao lembrar-se, por isso evita pensar.

Volta para o quarto carregando um copo d’água e, com a maior delicadeza e habilidade possível, dá de beber a moribunda que um dia foi sua mãe. Um dia que ela não se lembra, pois era muito pequena.

A mulher quase não bebe nada, mas parece acalmar-se depois disso. Isabele coloca o copo sob o criado mudo e vai até a janela contemplar a vista da rua, que é iluminada por alguns poucos postes de luz.

Ao fundo, dobrando a esquina, uma figura caminha cambaleante. O coração da garota dá um salto ao agarrar-se a esperança de que possa ser seu pai. Debruça o corpo para frente e observa com mais atenção.

Ela identifica a figura masculina de seu genitor.

- Ele chegou! O papai chegou mãe! – grita. A mulher parece não ouvir.

Eufórica, Isabele sai do quarto e corre até a porta da sala, abrindo-a. Então, sem conseguir controlar-se, chama:

- Pai? É você? – diz aos pulos.

A figura, atraída pela doce voz aguda da criança, começa a andar mais rápido. Isabele não estranha o jeito torto do caminhar do pai, pois ultimamente ele tem bebido demais. Mais do que sempre.

Ao chegar à entrada da casa, o rosto do homem fica visível. Definitivamente é ele.

 Finalmente chegou em casa e a garota poderá desfrutar de uma companhia de verdade por alguns instantes, antes que ele desabe em qualquer canto e durma roncando como um porco gordo. Está tão feliz que não nota as pequenas manchas de sangue na roupa de seu pai e a enorme ferida que tem em uma das mãos.

- Pai, ainda bem que você chegou… Não aguentava mais esperar. Adivinha o que aconteceu hoje? – e antes que a animada Isabele pudesse começar a contar como foi seu dia e desabafar suas longas histórias ele ajoelha e abraça-lhe.

Com uma onda de surpresa ela retribui… Está um tanto assustada, mas carente demais para questionar. Não está acostumada com abraços.

Mas algo está estranho… O abraço se prolonga e começa a ficar muito apertado.

Sufocante.

Ela sente o ar faltar nos pulmões e os ossos estralarem. Tenta livrar-se dos braços fortes do pai para respirar, mas como um cão raivoso ele morde-lhe a garganta, arrancando um enorme pedaço de pele e músculos. A garota sente uma dor fina atingir seu pescoço, seguida por um choque elétrico que percorre suas veias enquanto, aos poucos, uma cortina preta desce sobre seus olhos.

Com o olhar confuso e distante Isabele avista o relógio acusador na parede.

Ele não acusa mais.

Está girando os ponteiros e mostrando que seu tempo está quase no fim.

Pensa na mãe, na avó, no balanço colorido…

O pai muda o foco da violência e agora desfere mordidas sobre os ombros e braços da filha que, anestesiada, quase não sente nada.

Não sente medo.

Apesar de entender que está em uma péssima situação, sente-se em paz.

Suas têmporas estão pesadas demais e algumas lágrimas escorrem descontroladas.

Finalmente pode fechar os olhos sem preocupar-se em como será o amanhã.

Com um último suspiro e um pensamento feliz, recebe seu futuro de braços abertos.

Seu tempo zerou.

Dentista, viciada em séries, filmes, esmaltes, tecnologia e que só sai de casa acompanhada de seu querido smartphone.

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