Beleza Falada #05 – Variação Sobre a Vida

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Para você que ainda não conhece, Beleza Falada é um projeto do BelezaGeek para criação e divulgação de audiocontos e audiobooks. Confira agora o episódio 5 do projeto.

Variação sobre a Vida é um conto sobre um imigrante violoncelista, que se apaixonou por São Paulo e resolveu fazer sua vida como músico nesse lugar. Escrito por Jordan Florio de Oliveira. Você pode visitar a página do escritor no Facebook, clicando aqui. A arte de capa foi realizada por, Luis Alberto. Conheça sua página no Facebookaqui.

Clique no play abaixo e ouça esse conto.

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Variação Sobre a Vida 

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Autor: Jordan Florio de Oliveira

Narração: Bruna Evelyn

Edição: Bruna Evelyn

Capa: Luis Alberto

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VARIAÇÃO SOBRE A VIDA

Madrugada, a cidade dorme. Bem, parte dela dorme. Havia luz em uma daquelas janelas, em um prédio com pequenos apartamentos. O prédio era antigo, daquele tipo que, provavelmente, foi pensado como uma pensão para jovens filhos de fazendeiros que vinham do interior se formar em direito ou medicina.

Dentro do apartamento havia um homem de cuecas na frente do computador, com grandes fones de ouvido na cabeça e uma caneca vazia ao seu lado. Ele aparentemente não digitava nada mas parecia escutar algo.

Por alguns momentos revirou as partituras que se espalhavam pelo quarto. Tinha aquele tipo de organização que somente ele conseguia entender, por essa razão a empregada fora proibida de entrar ali: “esta parte eu mesmo arrumo, Adriana”. Ele ainda não conseguiu vencer o sotaque que trouxe consigo da gelada Suécia.

Tinha vindo a primeira vez de férias, há dois anos, e ficou um mês a mais do que planejou. Nunca mais conseguiu afastar seu coração de São Paulo e quando voltou a distante Estocolmo, não se sentia mais em casa. O gelo estava nas ruas e nos corações das pessoas, e, sinceramente, as mulheres vestiam roupas demais.

Ele adorava o ritmo e as curvas de São Paulo. Suas mulheres, sempre tão altivas, tão sensuais e, na maioria do tempo inalcançáveis, a não ser quando ele tocava. Aí tudo e todas estavam ao seu alcance.

Ele era musico. O violoncelo estava no canto. Tinha mais de um: um que usava para ocasiões mais sérias e aquele que ele trouxera de sua terra: presente de sua falecida avó. Aquele que tinha o som tão conhecido e querido que, mesmo se Satanás o roubasse e o tocasse no inferno, ele seria capaz de chegar lá apenas seguindo seu som. Aquele instrumento era parte dele. Era o que fazia qualquer parte do mundo ser sua casa. Com aquele violoncelo nas mãos ele era um rei.

Sofria de insônia há alguns meses, não pensou em passar em médicos porque primeiro: a grana era curta. Músico de rua não podia se dar ao direito de ficar gastando com médicos e ele não tinha nem um pouco de paciência para enfrentar a burocracia de um hospital público.

Além disso, se eles fizessem um exame de sangue nele, achariam amostras de quase todos os narcóticos conhecidos, legais e ilegais. Por isso, o melhor mesmo era fazer alguma coisa para ocupar a mente e cansá-la… Matar essa disposição tropical que se apossava dele.

Ele estava passando a sua última composição para o computador, que executava silenciosamente as notas que registrara. Decisão que tomou depois da terceira ameaça de despejo por excesso de barulho na madrugada, por festas e ensaios fora de hora.

Ele e seus amigos, em especial um moreno violinista chamado Mauricio, viviam em um mundo diferente das outras pessoas, universos distantes. Eles dois estavam ali, enchendo a rua com os acordes da versão da música do Caetano Velozo que fizeram, dando o swing de samba aos instrumentos de corda e arco, trazendo um pouco de felicidade aos que passavam e percebiam que o mundo não estava vivendo a terceira guerra mundial.

Ainda lembrava daquele comentário, feito em tom de piada por um boliviano que ele conheceu na rua. Um malabarista que estava viajando com sua garota pela América, mostrando sua arte e poesia, enquanto ela fazia artesanato em ferro e sementes, dentes e penas. Ele dizia que seus pais corriam tanto do trabalho para casa e de volta ao trabalho que com certeza ganhariam a 500 milhas de Indianápolis ou algo assim.

Era engraçado ele se lembrar de todas esses fatos enquanto escutava as musicas que compunha durante aquelas crises de insônia. Uma delas o fazia lembrar especialmente de um homem que ele conheceu na primeira vez que tinha vindo: “Olha bem pra eles, gringo. Eles são soldados, a pessoa que consegue viver esse dia-a-dia de São Paulo, trabalhar, pegar ônibus lotado, ir e voltar todo o santo dia encara um Afeganistão e um Iraque brincando”.

Aquelas palavras não saiam de sua memória, ele pensava na vida que levava, de quando se desentendeu com seu pai, que queria o filho realizando seus sonhos frustrados: fizesse faculdade, fosse um engenheiro ou um médico respeitável. Muitas vezes ele precisou esconder o violoncelo da fúria do pai, ainda mais quando ele anunciou que iria para o Brasil para se tornar músico profissional.

Fazia quase um ano que não escrevia nem dava noticias em casa, e a voz do pai ainda o perseguia em seus pesadelos ocasionais e até em algumas das suas piores bebedeiras.

“Deixa aí que ele voltou pra casa por meia hora”. Mauricio dizia quando ele começava a falar em sueco, sozinho, no meio das bebedeiras. Ás vezes falando em um celular que não existia, às vezes revivendo as conversas que teve quando saiu de vez da vida de seus pais. A mais traumática  que teve com o pai foi quando ele disse que o filho estava morto e não queria saber de “um vagabundo que não acrescenta nada a sociedade, não produz nada”.

“Esta é para você, pai”. Ele pensou, enquanto tocava no sistema do computador sua obra mais triste e amargurada. Ele tirou os fones, pegou um cigarro na estante e a fumaça sobre ao teto, fazendo desenhos, brincando com o vento que entrava pela janela aberta. Ele pensou na saudade de casa, dos amigos que deixou na Suécia, mas ao mesmo tempo pensava naquela segunda-feira de fevereiro, quinze dias depois de ter voltado do Brasil…

Tinha aberto sua página do Facebook e visto as fotos dos amigos que ficaram no Brasil, viu-os debaixo daquele sol maravilhoso, lembrou-se dos cheiros e das cores e olhou pela sua janela e contemplou o mundo cinza e sem graça que o esperava lá fora.

Não era só o frio, era o sentimento de frio, os olhos gelados e indiferentes das pessoas que se cumprimentavam pela educação, mas não tinham aquele calor nas suas almas. Corações que de tanto suportar o frio por gerações haviam se tornado também de gelo.

Aquela era a música para o que ele sentia: uma variação que ele fez sobre o Anel dos Nibelungos, de Wagner, que chamou de Os Gigantes de Gelo. Ele se lembrava das pessoas da sua terra, todos muitos altos e com seus olhos azuis, gelo para todos os lados…

Ouviu a música e era como se o ar esfriasse ao seu redor, sentiu-se transportado de volta para sua casa e, antes que adentrasse aquele delírio de novo, ele pára o programa, tira o fone de ouvido e olha para a janela.

O sol tropical estava nascendo e por mais uma noite ele não conseguiu dormir. Ficaria se sentindo um lixo durante a manhã inteira. Teria de tomar meio litro de café antes de conseguir fazer qualquer coisa que prestasse, mas desligou o computador sorrindo e pensou consigo mesmo “Vou encontrar o Mauricio e encher o saco até ele concordar em ensaiar aquela variação do Guarani que eu quero fazer e que vou chamá-la de As árvores de sangue”.

Dentista, viciada em séries, filmes, esmaltes, tecnologia e que só sai de casa acompanhada de seu querido smartphone.

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