Um Conto de Zumbi em Sampa

Acompanhe essa série sobre o apocalipse zumbi no Brasil, escrito por Jordan Florio de Oliveira. Cada dia um trecho novo da história para você. Fique ligado e continue acompanhando para não perder nada.

Acordo mais um dia, sem saber se chegarei vivo ao fim dele. Estes são tempos malditos, a sociedade e a civilização escoaram pelo ralo como sujeira, mostrando a pele nua da nossa espécie. Muitos ainda tentam, eu mesmo tento manter a literatura e a nobre arte de fazer um café decente vivas (saudades eternas do expresso que eu tomava todo dia de manhã antes do trabalho). A realidade, porém, é que na terra da garoa, agora anda chovendo sangue.

Acordo no meu quarto, em um apartamento no sexto andar. Fico muito feliz de não ter de dormir “lá embaixo”, apesar de achar que o preço que tenho de pagar por isso ser um tanto caro demais. Antes dos portões do inferno se abrirem e os mortos voltarem de suas sepulturas, eu era um jornalista, frustrado por não conseguir ser mais do que um dos redatores de um jornalzinho de bairro. Passei os últimos seis meses em que ainda existia um jornal escrevendo obituários. Ironicamente continuo escrevendo sobre os mortos.

Vou até minha janela, com a caneca que achei no armário da cozinha nas mãos, dentro o melhor café que eu sou capaz de fazer. Olhando de fora devo parecer um idiota, “a raça humana devorando a si mesma nas ruas e este idiota reclamando de café?”. Pode ser que eu seja realmente um idiota, mas o sol nasceu de novo e eu tenho trabalho a fazer. Vou até a minha mesa, onde a garrafa de café faz par com a máquina de escrever, mas não tenho tempo de terminar o último “relatório”. Sou interrompido pelas batidas intranqüilas de sempre, já sei quem está do outro lado da porta. Anderson, o antigo porteiro do prédio, cujo sotaque rendeu o apelido de “mineiro”, seus olhos castanhos adornados por olheiras negras enormes. Pego o mapa e desço as escadas. Entro na pickup e saímos do condomínio, em busca de alguma esperança de sobrevivência.

Devido à falta de cuidados, o asfalto está semi destruído e com mato brotando entre as rachaduras. Não que a S10 onde estamos tenha problemas com isso, mas é deprimente ver as construções desabando como um enorme corpo em decomposição. Corpos em decomposição, infelizmente, tomam uma parte da rua à frente. Eu escuto Chicão destravar sua arma, algum tipo de metralhadora (realmente não sou bom com armas, e não me importo de não saber a diferença entre elas) e com um barulho infernal, cospe balas sobre os corpos podres, que caminhavam em nossa direção. Um deles cai na frente do carro e o som de seu crânio cedendo ao peso da roda é como uma fruta madura sendo esmagada.

Finalmente chegamos a nosso objetivo, O letreiro do Extra está amarelado e descascando, sem lâmpadas inteiras e os carros que encontramos da última vez ainda estão por aqui, mas foram movidos para perto da entrada, como se alguém quisesse proteger aquela entrada. Anderson sai da cabine, fazendo sinal com a cabeça para que eu o siga. Ele recebeu instruções diretas do General de me manter perto da ação, mas não perto demais:

- Vocês conhecem o procedimento, senhores, mantenham-se alertas!

Ele adianta-se cerca de dez passos de nós e grita, fazendo as mãos em concha:

– Olá! Se existe alguém aí dentro, saiba que este hipermercado está em nosso território.

Não pretendemos ferir ninguém, mas vamos levar os suprimentos que acharmos interessante. Qualquer animosidade ou tentativa de nos deter será tratada como desrespeito as leis vigentes em nosso território e será punida com a morte! Caso vocês se rendam pacificamente e nos ajudem a carregar a pick up, poderemos levar vocês para fazerem o teste de admissão em nosso condomínio. Sempre que ouço essas palavras com aquele sotaque mineiro, lembro-me da primeira vez que as ouvi, lembro-me do medo e do desespero, do alívio de ouvir outra voz humana e do terror que aquele discurso frio, gritado com sotaque de Minas, inflexível como a pregação de um fanático.

Odeio o barulho que se segue ao discurso de Mineiro, o barulho arrastado de pés no chão imundo, derrubando coisas em seu caminho, totalmente indiferente a situação. Todos tomam suas posições e avançam, eu sempre na retaguarda. O ruído vem de um adolescente, não mais que dezesseis anos, cujos olhos injetados e a face descarnada faz com que acreditemos que estamos frente a mais um maldito zumbi, mas não. Ele é apenas um viciado, dopando-se para não encarar a realidade. Uma saída covarde, mas tremendamente eficaz, pelo volume das risadas dele. Para meu espanto, Mineiro aperta o gatilho e despedaça a cabeça do rapaz, da mesma maneira que se faria com um dos mortos, mas aquele rapaz estava vivo. Um momento de desconforto se arrasta enquanto o eco do disparo se dispersava, todos olham ao redor, esperando mais alguma oposição, viva ou morta, e então se encaram, quase ao mesmo tempo. Em todos os olhos, a mesma certeza “é melhor não mexer com Anderson ou com os moradores, ou teremos um fim similar.” Enquanto eles entram para buscar, os suprimentos, Anderson joga seu facão no chão, a ponta enterra-se, muito próximo ao cadáver do rapaz, e fica balançando como uma flor ao vento:

Fatia o presunto que a gente vai levar esse aí com a gente.

Minha mão treme quando pego o facão, é a primeira vez que tenho de fazer isso. A coragem me falha, a mão treme ainda mais. Não percebo alguém se aproximando de mim e me sobressalto quando sinto a mão no meu ombro.

Deixa que eu faço, poeta, você não tem estômago para isso.

A voz é conhecida, é um alívio. Antônio tem seus cinqüenta anos, uma face vincada por dias debaixo do sol no campo e aquele sorriso que deixaria Alberto Caieiro orgulhoso. Um homem simples, de idéias simples e um fascínio ardoroso pelas histórias que eu conto.

Ele toma o facão de minha mão com gentileza e começa a destroçar os ossos do rapaz, começando pelo crânio. Eu o vejo arrancar a cabeça do jovem e jogá-la para o lado, como se estivesse limpando um grande peixe ou um porco. Meu estômago embrulha frente ao som e aos respingos de sangue. Afasto-me, apoio em um carro e vomito todo meu café da manhã.

Meia hora depois, as quais eu passo ajudando Antônio a recolher os pedaços do pobre garoto e colocá-los em sacos de lixo, Mineiro e seus homens saem de dentro do Extra, tropeçando enquanto empurram três carrinhos de compras. O cheiro do álcool empesteava o ar e as canções que eles cantavam, provavelmente alguma coisa do Daniel ou de algum desses outros cantores que eu não conheço, deram a certeza de que eles acharam mais bebidas. Serão mais dias infernais até a bebida acabar de novo.

Eles nem olham para nós, estão felizes demais para perder tempo com dois forasteiros como eu e Antônio, eles carregam a S10 e Anderson joga as chaves na minha direção:

Você dirige, vou atrás com os caras. Precisamos comemorar. Achamos uma garrafa de Black Label e teremos uma festa hoje! Mais ruídos de tiros quando entro na cabine, ao lado de Antônio, que colocou o saco preto aos seus pés.

Guio o carro de volta para o condomínio, com um medo fundamentado: Mineiro e seus comparsas fazem tanto barulho na caçamba que deve ter acordado até os mortos do cemitério. Por alguns instantes olho para trás, verificando se existem zumbis atrás de nós que servissem de explicação para os tiros disparados, mas aparentemente são apenas tiros de alegria pela “colheita” bem sucedida.

Ao dobrar uma esquina, sou assustado por latidos, vejo um cão muito magro, de pelagem branca e um olho cego. O cão, apesar de sua magreza e do estado encardido no qual se encontrava sua pelagem  alva, é de uma beleza surreal. Seu olhos, um branco e o outro castanho claro, quase âmbar, fixam-se em nós  ao ver nossa passagem e, como se pedisse ajuda, ele late de forma suplicante.

Recebo o comando de parar o carro, aparentemente o cão subiu sem cerimônias na caçamba e pudemos partir de novo. Ouve-se os homens alimentando o cão com restos e pedaços de carne um tanto estragada. Ele não recusou nada, comendo como se não visse comida há meses.

Mal sabia ele qual destino o aguardava atrás de nossos portões. Uma lágrima solitária corre pelos olhos de Antônio:

Não quero ver o que eles vão fazer ao pobre cão.

Meu caro amigo. – Respondi, com pesar na voz. – Você sabe que não temos escolha.

Os portões do condomínio se abrem e entramos com a S10. Somos recebidos como heróis, o que só piora o meu humor, por já conhecer o procedimento. Pego a prancheta de estoque da despensa e começo a catalogar os víveres que trouxemos, obviamente depois de Mineiro e seus homens desviarem a “taxa” deles, que basicamente consiste de todas as bebidas e boa parte da carne ainda em condição de consumo.

Após isso, tenho a obrigação amaldiçoada de lidar com o saco, o pego de dentro da cabine da pick-up e o entrego nas mãos de Figueira. Figueira é um homem de cerca de cinqüenta anos, cabelos e barba perfeitamente aparados, sempre em roupas que demonstram claramente sua filosofia: trabalho duro e obediência as regras fazem de um aglomerado sem sentido de pessoas uma sociedade ideal. Aclamado como líder dos Moradores, ele dirige o condomínio como o estaleiro de sua família em Santos.

Volto a falar dele depois, afinal, estas linhas estão sendo escritas sob ordem dele.

Entrego o saco, sem dizer nada.

Ele olha fixamente em meus olhos.

– Ele estava saudável? O arrepio ao encará-lo é simplesmente impossível de evitar.

Aparentemente só drogado, Sr Figueira. – Antônio o cortou e deixou a cabeça para trás conforme as instruções. A gagueira no fim da frase também é impossível de controlar.

Ele tira o saco de minhas mãos e assobia. Seu assobio, alto e estridente, provavelmente treinado por anos de trabalho no ambiente portuário, parece ressoar até o centro da Terra e os rugidos, latidos e ganidos que respondem ao chamado parecem aos meus ouvidos como se Cérbero respondesse ao senhor das profundezas.

A antiga quadra de esporte, agora convertida em canil, guarda os animais que Figueira gosta de chamar de “guardas”. Na verdade são todos os cães que eles encontraram nos arredores, colocados em um ambiente restrito por algum tempo e, devido a própria escassez de comida, alimentados com o que sobrava, com o que não era próprio para consumo humano.

Observando como os cães reagem ao homem, acredito sinceramente na teoria de que ele foi aceito como “alfa” dentro daquela matilha, qualquer outra pessoa que entre na quadra sem a presença dele provavelmente não sairia viva de lá, e por isso mesmo eles são soltos a noite, para patrulhar a parte externa dos prédios, para terror daqueles que tem de dormir nas garagens. Ele entra na quadra com o saco nas mãos, mas ao contrário de outros cães, nenhum pula em cima dele, passam seus focinhos em sua canela como sinal de respeito e afeição, alguns se mantém afastados, outros deitados, fracos demais para levantar. Muitos daqueles que estão deitados já estão mortos, com suas barrigas e costas com marcas por mordidas. Figueira gira o saco e o lança ao ar, dá as costas aos cães famintos, que iniciam o combate pela carne do jovem morto por Anderson antes mesmo do saco cair no chão.

Anderson vai até a porta de tela de arame da quadra, com o cão encontrado sendo trazido pelo couro do pescoço, de forma surpreendentemente amável:

– Trouxemos mais um aspira, chefe.

Figueira se aproxima e olha o cão no fundo de seus olhos, escuto o cão murmurar, como se estivesse chorando.

Vamos ver quanto tempo ele dura. Ele diz, atirando o cão dentro da quadra e fechando o portão.

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Atualizado em 31/01/2014

Vejo aquele cão, perdido entre outros cães, maiores e mais ameaçadores, percebo seu medo e sua incerteza e o entendo plenamente. Perdi a noção de quanto tempo me sinto como ele, perdido e preso entre assassinos e carniceiros.

- Hoje à noite teremos mais uma história, não é mestre?

A voz de Figueira, tão fria quanto seu olhar. Eu sei que terei de contar histórias esta noite de novo. Eu deveria ser agradecido, sou mantido vivo e com privilégios de Morador graças a minha capacidade de entreter pessoas com as minhas histórias. Mas por algum motivo eu me sinto mal ao enganar estas pessoas. O fogo arde dentro dos barris, suas chamas produzem sombras assustadoras nas paredes dos prédios, os ganidos atormentados dos “guardas”, provavelmente devorando outro dos cães velhos ou fracos demais, as pessoas ficam dentro do círculo de barris.

A cena toda tem um ar primal que faz com que os relatos que eu conto sejam ainda mais apavorantes. Começo a noite com histórias antigas, mais para as crianças que para os adultos, afinal de contas não existe muito entretenimento por aqui. Eu decido por contar uma versão simplificada de Dom Quixote, usando sombras para fazer gigantes que se transformam em moinhos, e todos os sonhos de um velho louco, que constrói seu mundo ao redor de si, apesar de desconhecer totalmente a realidade ao seu redor.

Vejo que Figueira ouve a história, vendo as pessoas se maravilharem e rir animadamente das trapalhadas do velho tolo. Ele não compreende a ironia na escolha da história. Chega o momento que as crianças são postas para dormir e a “diversão” realmente começa. Conto sobre como o mundo está devastado lá fora, como ninguém poderia pensar em sobreviver sem os muros do condomínio, sem as leis dos Moradores. Eu sou o carcereiro da pior tipo de prisão que existe: a prisão da mente, a prisão da esperança.

Escritor, que vê o mundo de uma maneira especial e tenta transmitir essa visão aos outros, através de belas histórias.
“A história precisa ser vivida, antes de ser contada”

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2 comments to Um Conto de Zumbi em Sampa

  • Igor  says:

    “Anderson joga seu facão no facão no chão…….” facão no facão no chão? acho que escreverão errado.

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