Beleza Falada #08 – Engrenagens do Tempo

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Para você que ainda não conhece, Beleza Falada é um projeto do BelezaGeek para criação e divulgação de audiocontos e audiobooks. Confira agora a continuação do audioconto Beleza Falada 07 – Dama Mecânica.

Engrenagens do Tempo conclui a história do velho relojoeiro, que depois de tanto tempo faz uma revelação para sua família. Escrito por nosso parceiro Jordan Florio de Oliveira. Conheça sua página no Facebook e leia outros contos em seu Wattpad. Contamos também com Vitor Hugo Mota interpretando o pai e narrando parte do conto. Conheça seu trabalho visitando seu site Chá dos Cinco. Fazendo a voz da mulher dos sonhos contamos com a participação de Fabiana Fernandes. Você pode conferir seu perfil no Facebook.

Clique no play abaixo e ouça esse conto.

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Engrenagens do Tempo

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Autor: Jordan Florio de Oliveira

Narração: Vitor Hugo Mota / Bruna Evelyn

Voz pai: Vitor Hugo Mota

Voz mulher: Fabiana Fernandes

Edição: Bruna Evelyn

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ENGRENAGENS DO TEMPO

O maior problema que ele tinha na vida, desde sempre, foi com acordar. Desde sempre ele sonhava de maneira tão intensa e poderosa que acordar sempre foi um tormento para ele.

Todos os dias era a mesma coisa. Ele acordava gritando e chutando, precisava de, pelo menos, dois minutos inteiros para entender onde estava e somente depois disso ele estava apto a interagir com as pessoas.

O mais fantástico sobre este jovem é que ele tinha lembranças nítidas e detalhadas sobre seus sonhos, e as contava apaixonadamente para seus pais e irmãos menores, na mesa de café da manhã.

Todos na família amavam suas histórias, menos o pai.

O bondoso, mas rígido relojoeiro acreditava que aquelas alucinações do filho eram perda de tempo e todas as vezes que ele se delongava em alguma história especialmente sem sentido, ele tratava de interromper a narrativa e o apressava para irem trabalhar na pequena relojoaria da família.

O jovem rapaz sentia pena algumas vezes dos seus irmãos menores, que não podiam ver ainda a metamorfose que o trabalho operava em seu pai. O homem sisudo e de poucas palavras em casa se mostrava um apaixonado pela precisão e a engenhosidade da mecânica.

O aprendiz era duramente testado todos os dias e muito exigido por seu pai, mas como o rapaz aprendia muito rápido os segredos das engrenagens e mecanismos, passavam os dias desafiando-se com maquinários complexos e soluções diferentes para o mesmo problema.

Em seu aniversário de quinze anos, o rapaz recebeu uma grande caixa de ferramentas vermelha de aniversário, mas a tranca daquela caixa era um grande quebra-cabeça, de relojoeiro-mestre para seu aprendiz. Quando questionado sobre como abrir o dispositivo, o pai sorriu e respondeu:

Eu ganhei minha própria caixa de ferramentas do seu avô quando tinha quinze anos. Essa é a sua, abra a caixa e as ferramentas dentro são suas.

Aquilo era mais do que o rapaz podia querer, pois ganhar suas próprias ferramentas significava que ele não seria mais um simples aprendiz, e sim um relojoeiro completo.

Todas as horas vagas entre a escola e a oficina eram gastas na tranca da caixa, com muita dedicação e algumas noites em claro ele compreendeu como funcionava o mecanismo da caixa, mas ainda não sabia como aquele mecanismo faria a caixa abrir-se.

Depois de quase uma semana praticamente sem dormir, ele cedeu e deitou-se em sua cama, exausto. Dormiu quase que no mesmo instante.

Naquela noite ele sonhou com engrenagens.

Sonhou com um mundo maravilhoso e fantástico, todo movido à corda e guiado por peças de relógio, o sol era uma grande roda dentada dourada, em uma série de engrenagens que moviam nuvens de papel de seda. As árvores e flores eram vitrais perfeitos, as copas das árvores faziam um farfalhar movido pelo mesmo mecanismo que movia as nuvens, o que gerava a imagem perfeita de uma campina varrida pelos ventos de verão, iluminada e musical, a cena descortinava-se como uma caixa de música viva.

No centro daquele mundo existia uma mulher.

Vestia um traje de gala de roldanas e pistões, mecanismos de corda e caldeiras incandescentes, todos funcionando como uma única máquina, eterna e perfeita, sem necessidade de combustível ou reparos. Seus olhos eram duas estrelas, brancas e luzidias e em seus lábios, somente uma palavra sussurrada. O encontro dos lábios dela nos lábios dele:

Crie. Mostre este mundo às pessoas.

Em um instante desconcertante, as estrelas que eram os olhos dela começaram a apagar lentamente, com a luz esmaecendo sem pressa. A diminuição da luz revelou que ambos os olhos daquela mulher eram relógios antigos, os ponteiros negros apontando para numerais romanos. Encarando aqueles olhos o rapaz sentiu o tempo correr de forma vertiginosa. Imagens vinham a sua cabeça de forma incoerente. Seriam delírios, sonhos?

Não, eram lembranças, lembranças de sua vida.

Ele começa a relembrar o primeiro teatro de corda que montou, a bailarina homenageando a dama dos seus sonhos, lembrou do quanto o pai ficou admirado com a técnica perfeita por trás daquelas máquinas de ilusões e histórias que os dois começaram a criar juntos, como ficaram ricos e famosos com o invento e todas as consequências disso.

Incluindo o assassinato do pai, por bandidos que desejavam o dinheiro da então grande e importante relojoaria que tinha o nome de “engrenagens dos sonhos”.

Reviveu a agonia de entrar na loja que ambos construíram com tanto carinho com uma marreta e destruir tudo, de proibir todos da família de citarem aquela parte da história, inclusive de citarem o pai perto dele, do tempo em que ele pensou em nunca mais trabalhar nesse ramo, de como ele decidiu voltar a trabalhar somente com relógios.

Casamento, filhos, contas, o acidente do irmão e a decisão de adotar o sobrinho, todas as lembranças explodiam em mente como uma saraivada de tiros de metralhadora antiga. Até o dia do bar com os amigos de muitos anos, todos já velhos e cansados, de dançar na relojoaria meio bêbado e da dor excruciante na cabeça, ele lembra de desmaiar e das trevas.

Nas trevas, uma voz conhecida, a voz de seu pai, a voz feliz pouco antes da tragédia dizia:

Abra a caixa novamente.

Ele grita em desespero, como se estivesse acordando em sua cama, na sua casa, a mais de cinquenta anos atrás, mas ele estava acordando em uma cama de hospital, milagrosamente recuperado de um AVC e um coma.

Alguns dias depois, já de volta em casa, ele pede ao filho que trabalha com ele na oficina que traga a caixa vermelha para casa, para ser aberta frente a todos os membros da família. Com todos reunidos, ele dá corda no mecanismo da caixa, que começa a se mover sozinha e joga a tampa para cima, a coisa mais óbvia a se fazer com qualquer relógio e máquina similar.

Quando a tampa se abre, o velho sonhador puxa de dentro da caixa alguns recortes de jornal sobre as fantásticas máquinas que foram chamadas de “teatros de corda” pelos jornais, as fotos do pai que ele não destruiu em sua raiva e remorso e a única peça dos teatros que tinha escapado de sua fúria: uma mulher com um vestido feito de engrenagens e olhos de lâmpada.

Dentista, viciada em séries, filmes, esmaltes, tecnologia e que só sai de casa acompanhada de seu querido smartphone.

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