Beleza Falada #09 – Novembro

BF9

Para você que ainda não conhece, Beleza Falada é um projeto do BelezaGeek para criação e divulgação de audiocontos e audiobooks. Confira agora o episódio 9 do projeto.

Novembro conta a história de uma relação além da amizade que prova que podem existir perdas tão fortes quanto a morte. Escrito por Fabiana Fernandes. Você pode conferir seu perfil no Facebook. Fazendo as vozes do Vitor contamos com a participação de Renan Bruno. Você também pode visitar seu perfil no Facebook.

Clique no play abaixo e ouça esse conto.

beleza falada9

Novembro

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Autora: Fabiana Fernandes

Narração e voz feminina: Bruna Evelyn

Voz Vitor: Renan Bruno

Edição: Bruna Evelyn

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NOVEMBRO

Eu o observei atravessar a praça em direção a mim. Eu estava sentada em um banco, abraçando os próprios joelhos. O ar era frio, mas o sol estava presente, na realidade era um dia lindo. O céu estava completamente azul. A praça, com suas árvores altas, com os pequenos brinquedos das crianças, todos parados, pois ainda era muito cedo. Eu amava acordar cedo nestes dias, de outono. Não existia luz mais linda do que essa que emanava nestes horários, e é claro que ele sabia disso. Ou deveria saber. Aquilo ainda era muito confuso para mim.

Ele vinha a passos lentos, com as mãos nos bolsos, olhando o chão. Essa uma característica nova. Ele sempre olhou pra mim. Mas eu não saberia dizer, se era ‘ele’ que ainda estava ali. O Vitor, meu vizinho de uma vida inteira, meu melhor amigo. Nós costumávamos ter uma ligação muito grande, de presença, de pensamento. Eu conhecia cada expressão dele, cada sentimento, cada hábito. O nosso sentimento na adolescência era uma necessidade da presença um do outro, completamente fora do normal. Era como algo que se completava perfeitamente. Mas não, nunca o namorei. Nunca sequer o beijei. Nosso sentimento era muito além.

Até que chegou o dia em que ele precisou ir embora, para outro estado. Certamente isso afetou a pessoa que eu era, e viria a ser depois. Ele também, sem dúvida. Tentamos manter o contato pelo tempo que pareceu ser possível, mas a distância, ela consegue destruir coisas indestrutíveis. Faz-nos pensar que aquilo não é mais necessário, como parecia ser antes. Nossa ligação se perdeu.

Quando nos falávamos era aquela coisa superficial. Até que enfim, nos perdemos por ai. Na base de sete meses sem nos falar, de nenhuma forma, eu comecei a sentir uma necessidade enorme de ligar pra ele, uma angústia. Mas não o fiz. Algum tempo depois, recebi um telefonema da mãe de Vitor. Ele havia sofrido um grave e enorme acidente de carro. Nesta época, o grande acumulo de pessoas que estavam migrando para minha cidade, estava a fazendo crescer de uma maneira assustadora, mas como em todas as cidades grandes, você apenas pensa em si mesmo, não olha para os lados. Mas, para onde ele estava indo? Sim, ele estava indo me ver. Por que estávamos em novembro.

Ao chegar ao hospital, toda a sensação da presença dele, pra mim, retornou com uma força brusca e irremediável. Pareceu que nenhum tipo de tempo ou distancia haviam me afetado. Essa é outra característica da distância, quando há um sentimento forte a distância abate. Mas é você olhar novamente, e apenas uma vez, e voltar embolando tudo em volta. Eu entrei no quarto dele, estava dormindo, mas eu senti a presença dele dentro de mim, da sua pessoa, da sua personalidade. E eu sorria, eu gritava por dentro, por estar ali.

Mesmo sendo por um motivo como um acidente, mas afinal ele iria ficar bem. Estava fora de perigo, e eu agradecia, pelo fato dele estar indo me ver – parecia egoísmo, mas isso queria dizer que ele não havia me esquecido – e de agora poder estar perto dele novamente. Mas foi ele abrir os olhos, e eu desmoronar. Eu olhei dentro deles, e eu vi que a pessoa mais importante pra mim, havia ido embora. Não era mais ele. Fiquei sabendo pela mãe dele, que a única sequela do acidente, era ele ter perdido a memória. Completamente. Era como se ele tivesse morrido, pois ele teria que se encontrar novamente. Ao saber disso, eu nunca mais o vi, não quis simplesmente, ver a transformação de outra pessoa vir à tona. E hoje, ele vinha em minha direção, um ano depois do encontro do hospital. Eu não o olhei, fiquei a fitar meus dedos, e ele se sentou ao meu lado, cruzando os dedos das mãos, e as apoiando no joelho. Ele também não me olhou.

Não tinha idéia de porque meus pés me traziam até aqui, mas quando vi você, eu entendi. – ele disse vagamente, devagar, baixo. Até o tom de voz havia mudado. – Minha mãe, me contou sobre você, alguns fatos que aconteceram com nós dois, e eu posso imaginar como pode ser difícil pra você.

Agora ele virou seus olhos, claros, para me fitar. Eu não senti nada. É como se um desconhecido, começasse a falar com você na rua.

Você não precisa fazer isso. – disse eu, e me assustei com meu tom de voz. Era embargado, travado.

- Eu não vou importuná-la mais. Apenas senti uma necessidade de vir aqui. E de saber por que a palavra novembro, não sai da minha cabeça. – Ele continuou.

- Foi quando você me salvou quando eu era criança. – respondi, me forçando a virar para olhá-lo.

Vitor quando era criança, com seus cinco anos, havia entrado na minha casa, e me tirado do berço, quando eu tinha meus dois anos e meio. A casa estava com vazamento de gás, e ninguém havia percebido, minha mãe estava no terraço, eu estava dormindo. Ele havia pulado dentro do berço, me colocado para fora e pulado novamente, caindo e machucando sua nuca. Ao chegar lá fora comigo, minha mãe ralhou com ele, e ele inocentemente, disse que estava muito ruim lá dentro para brincar, pois estava um cheiro ruim.

Ninguém acreditou muito neste episódio. Todos ficavam pasmos, mas para mim, foi neste dia que ele se tornou a presença necessária pra mim. Algo essencial. E aquela manhã, era uma manhã como essa agora. De outono, em novembro. Isso nos marcou demais, e passamos sempre a admirá-la. Vitor dizia muito para mim, que eu era o seu novembro, pois a cor de meus olhos eram dourados, como as folhas ficam nesta época, de outono.

Ele me comparava com esta manhã, que eu era a sua luz perfeita, no horário perfeito, com o calor perfeito, no lugar perfeito. Mas eu preferi não acrescentar isso a ele. É, aqueles olhos continuavam a não ser os mesmos. Eu balancei a cabeça em negativa, me perdendo dentro deles, e ele percebeu isso. Eu me aproximei lentamente dele, ele ergueu seu tronco, para ficar na mesma altura que meus olhos. Eu fechei os olhos, e me embriaguei no seu cheiro. Podia haver um perfume diferente ali, mas o cheiro dele, da sua pele, não poderia mudar, e esta era a única coisa que eu podia ter.

Levei minha mão até perto de sua nuca, tocando de leve a cicatriz que havia ali, do dia em que ele me salvou. Eu conhecia cada detalhe daquele rosto, cada movimento. Sem pensar muito, eu segurei seu rosto, e o beijei. Inocentemente. Fiz isso como uma despedida, que não pude dar ao meu novembro, ao meu perfeito. Depois me afastei e me levantei, deixando ele atônito no lugar. Segui em direção à esquerda. Não estava triste, pois sabia que apesar dele não habitar mais aquele corpo, ele habitaria sempre, dentro de mim.

Dentista, viciada em séries, filmes, esmaltes, tecnologia e que só sai de casa acompanhada de seu querido smartphone.

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